Beira fica para trás com cheiro de sal e mangal; a EN6 estende-se plana sobre a planície do Púnguè, entre arrozais, lagoas rasas e garças imóveis no espelho d’água. Em Dondo, canaviais e fábricas surgem como sinais de fronteira entre o litoral húmido e o interior. O asfalto segue em linha reta até Inchope; ali, ao dobrar para a EN1 rumo ao norte, a luz muda de tom e a savana abre-se em capim dourado, mopane e acácias de sombra curta. No horizonte, em dias limpos, o maciço da Gorongosa aparece como um dorso azul.
A estrada sobe e desce tabuleiros de terra vermelha, passa aldeias com telhados de colmo, bancas de caju e pirâmides de cocos. Em Caia, o país parte-se e volta a juntar-se no Zambeze: a travessia revela bancos de areia, barcos pesqueiros e uma largura de rio que parece mar. A norte da ponte, a Zambézia recebe o viajante com palmeiras, cajueiros e, ao longe, sulcos de serras: quando o céu está claro, adivinha-se o anfiteatro verde em torno de Gurúè, ainda que a estrada siga à distância.
Depois de Mocuba e Alto Molócuè, o miombo torna-se mais fechado, os vales ficam mais fundos e a tarde demora mais a cair nas encostas. Baobás solitários marcam curvas largas; nos taludes, cupinzeiros altos vigiam as bermas onde chapas, bicicletas e camiões partilham um ritmo paciente. A cor da terra alterna entre o tijolo e o chocolate conforme a última chuva; quando o vento levanta, o pó desenha véus breves sobre a paisagem.
Já em Nampula, o cenário muda de pele: surgem os inselbergs de granito — montes em forma de pão-de-açúcar que irrompem do chão como esculturas. Entre eles, machambas de mandioca e milho, ribeiros rápidos depois da chuva e aldeias encaixadas em clareiras. Os últimos quilómetros serpenteiam por este jardim mineral até que, de repente, a cidade aparece entre rochedos, com o céu enorme por cima. É uma viagem que cose estuário, savana, grande rio e montanhas de pedra num único fio de estrada.

























